Aos 28 anos, atacante é artilheiro no Guangzhou Evergrande e acaba de ser pai pela segunda vez. Ele conta que quase se naturalizou austríaco e que se considera "com certeza tricolor de coração"

O torcedor do Fluminense provavelmente se lembra de um jovem e promissor atacante que defendeu o time carioca entre 2008 e 2010. Aquele rapaz franzino e tímido, mas com grande potencial, era Alan. Cerca de uma década se passou, e o garoto amadureceu. Destacou-se na Áustria, pelo RB Salzburg, e depois foi seduzido pelos milhões chineses. Hoje, aos 28 anos e com alguns fios de cabelo precocemente brancos, defende o Guangzhou Evergrande e vive ótimo momento, tanto na vida profissional quanto na pessoal.
Sem empresário após romper com Eduardo Uram, Alan atualmente toma conta da própria carreira e recém começou sua terceira temporada no futebol chinês. Ele está embalado. É o artilheiro da equipe, com nove gols em oito jogos, ao lado do compatriota Ricardo Goulart. E neste mês se tornou pai pela segunda vez: nasceu Lara no último dia 9.

O atacante aproveitou a pausa de 12 dias do Campeonato Chinês - por conta dos amistosos da Fifa - para viajar ao Rio de Janeiro e conhecer a filha. O primeiro filho e a esposa moram com ele em Guangzhou, mas tinham ficado no Brasil após as festas de fim de ano. Na nova casa que comprou na Barra da Tijuca, Alan recebeu o GloboEsporte.com ao lado da família, bateu um papo bacana sobre a carreira e se mostrou muito bem resolvido.
Ele disse, por exemplo, que está totalmente adaptado à China e que não persegue o sonho de jogar por um grande clube europeu, apesar de ter talento para alçar voos mais altos. Sem jamais ter sido convocado para a seleção brasileira principal, contou que por muito pouco não defendeu a seleção austríaca. E falou sobre a relação de amor que tem com o Fluminense, para onde pretende voltar no futuro.
Veja a seguir a entrevista completa com Alan:
GloboEsporte.com: Aos 28 anos, você se considera no auge da carreira?
Alan: A gente adquire e aprende muitas coisas durante esse tempo todo. A gente amadurece, toma muitas pancadas, isso só faz crescer. Evoluí muito. Agora tem sido um momento muito bom para mim. Vivi grandes momentos em outros lugares por onde passei, mas agora é muito especial, não só no futebol, mas minha família está crescendo. Só alegria.
Muitos dizem que o Campeonato Chinês é fácil. O que você tem a dizer a essas pessoas?
Você vê que muita gente vai e não consegue desenvolver um bom futebol. Fui me adaptando ao futebol, e jogo em uma grande equipe, com grandes companheiros. Isso tem facilitado muito a minha vida.
O entrosamento com o Ricardo Goulart está afiado.
Tem dado certo, né? A gente está junto há três anos. O Paulinho também estava, mas acabou saindo. Espero que a gente possa dar muita alegria ainda para o torcedor chinês.
Há uma disputa sadia entre você e Goulart pela artilharia. Rola brincadeira interna?
Não (risos). A gente está ali para ajudar a equipe, independentemente de quem faz o gol. O mais importante é a equipe em si. Estou feliz pelo meu momento e pelo momento dele também. Espero que os dois continuem marcando, o nosso time só tem a ganhar.
Chegou a receber propostas de clubes europeus nos últimos anos?
Não chegou proposta concreta para mim. Na maioria das vezes chega para o clube e tal, mas para mim, não.
Jogar por um grande clube da Europa é algo que você persegue?
Não. Lógico que a gente almeja coisas grandes. Não vou falar que estou acomodado, mas estou bem onde estou, minha família está bem. A gente tem que viver o momento, e o meu momento é muito bom. Gosto de onde estou, minha família também. Então, procuro viver um momento de cada vez. Meu momento agora está sendo ótimo e vou desfrutar dele. Enquanto estiver rendendo bons frutos, vou estar lá. Mas também não fecho nenhuma porta. A gente sabe como é o futebol. Por enquanto minha cabeça está só na China.

Como é a relação com o treinador Fabio Cannavaro?
Meu relacionamento com ele é muito bom. É um cara que viveu grandes coisas no futebol e tem agregado muito. Venho de uma cidade pequena do interior de São Paulo, e estar vivendo tudo isso é um sonho. Antigamente você via o cara na televisão e hoje pode trabalhar com ele, que foi eleito o melhor do mundo (em 2006), isso é fantástico. Como pessoa ele é um cara sensacional, com coração gigante e que tem ajudado muito. Espero poder aprender muito mais com ele.
Você nunca foi convocado para a seleção brasileira. Não pensa mais nisso?
A gente sempre sonha, mas acho que escolhi algumas coisas na minha carreira que me impediram de pensar em seleção brasileira. Quando estava no Fluminense e fui para a Áustria... Oportunidade eu até tinha, mas não me davam uma sequência, e era isso que eu buscava. Eu sentia que tinha condições de jogar, mas não tinha sequência. Eu queria isso. Quando fui para a Áustria, muita gente me chamou de louco, mas eu queria jogar e mostrar que tinha capacidade. E foi muito bom para mim. Foi lá que tive a melhor fase da minha carreira, fui muito feliz e até quase me naturalizei austríaco.
O que faltou para jogar pela seleção austríaca?
Claro que a seleção brasileira é o sonho de qualquer jogador, mas infelizmente não deu. Tive oportunidade de ir para a seleção sub-20, realizei um sonho. Não é como a principal, lógico, mas deu para sentir aquele gostinho. O futebol a gente sabe como é, tudo pode acontecer. Não sei se a chance vai chegar, mas vou estar preparado se isso acontecer.
Recebeu propostas de clubes brasileiros nos últimos anos?
Muitos empresários (intermediários) chegam, mas a gente não sabe se é verdade. Mas, como sempre estive bem e centrado eu onde estava, não me interessava voltar ao futebol brasileiros nesses momentos. Sempre agradeci, mas nem chegava a conversar com o clube.

Quando voltará ao Brasil?
É difícil falar. Procuro viver um momento de cada vez e pensar no momento. Meu momento está muito bom, minha família está bem adaptada, e agora não penso. O dia de amanhã pertence a Deus, e a gente não sabe. Vou ficar mais um tempo lá.
E tem clube definido?
Definido a gente não tem. Tenho um carinho especial pelo Fluminense. Foi o clube que me revelou. Joguei no Londrina antes de vir para cá, foi o clube que me projetou, e depois vim para o Fluminense, que me mostrou para o Brasil. Sou muito grato por tudo o que o Fluminense me proporcionou. Se tivesse oportunidade de voltar para o Brasil... Claro que a gente não pode fechar as portas para nenhum clube, pois sabe como é o futebol. Mas se tivesse uma preferência, seria o Fluminense.
Então, você é tricolor de coração?
Sou de Barbosa, interior de São Paulo, e minha família inteira era santista. Cresci santista. Depois, quando vim para o Fluminense... Não tem como, você abre mão de tudo. Quando vira jogador, você não tem mais um clube.

Continua acompanhando o Flu?
Continuo. A gente sabe que a situação não está muito legal, mas torço para que melhore, porque o Fluminense é gigante e não merece viver a situação que vive.
Para fechar, mande um recado para a torcida tricolor.
Fala, galera tricolor. Queria agradecer todo carinho que ainda recebo nas redes sociais, todo mundo pedindo minha volta. Queria dizer que fico muito feliz pelo carinho, tenho lembranças boas. Espero um dia voltar e, quem sabe, dar muitas alegrias para vocês.
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